Entrevista: Marcelo Barbosa, um brasileiro na banda

Foto: Marcos Hermes

Você sabia que o Guns N’ Roses quase teve um guitarrista brasileiro? Isso mesmo, brasileiro! Seu nome é Marcelo Barbosa, atualmente guitarrista das bandas ANGRA, ALMAH e REC/ALL, além de possuir uma carreira solo.

Em 2014, o ex guitarrista do Guns N’ Roses, Bumblefoot, já demonstrava que poderia sair da banda. Durante a passagem do GN’R pelo Brasil naquele ano, Bumblefoot conheceu Marcelo Barbosa, e queria indicá-lo para alguns testes no Guns.

Essa história completa você fica sabendo na entrevista exclusiva que o Guns N’ Roses Brasil fez com Marcelo Barbosa. Confira abaixo:

GNRBR: Esse ano você realizou uma campanha de crowdfunding para seu CD solo e houve uma participação significativa dos fãs. Como você vê esse novo meio de realizar projetos, de álbuns e até, recentemente, a shows?

MB: Eu acho incrível. Na verdade é uma tendência mundial essa aproximação entre artista e fãs. O que sempre aconteceu, de maneira resumida, era que uma gravadora pagava os custos de produção do trabalho, quando o mesmo ficava pronto, a gravadora vendia para lojas que por sua vez vendiam para o consumidor final. Obviamente, o artista ficava com uma falia ínfima desse bolo onde gravadoras, distribuidoras e lojas ganhavam a maior parte. Além disso, os artistas ficavam à mercê de serem “escolhidos” por uma gravadora que apostasse em seu trabalho. Com o avanço da tecnologia, ficou mais fácil gravar um CD de qualidade com um orçamento mais baixo. Com os serviços de streamming e venda digital de música, as lojas físicas em sua maioria se tornaram obsoletas e com a possibilidade de ter contato diretamente com os seus fãs através das redes sociais a venda direta entre artista e fã se tornou possível, viável e acima de tudo, interessante pra ambos os lados. Penso num projeto de crowdfunding como se o público fizesse o papel da gravadora, mas dando ao artista mais liberdade criativa.

GNRBR: Fala um pouquinho do seu CD solo! Quais foram suas maiores inspirações ao cria-lo? Quando poderemos ouvi-lo?

MB: Esse CD em tese já deveria ter saído. Atrasei a produção dele por conta da loucura que foi o ano de 2016 pra mim. Muitas viagens nacionais e internacionais com o Angra além do lançamento do EVO, novo CD do Almah. Não faz sentido fazer dois lançamentos tão importantes tão próximos um do outro. Pretendo programar o lançamento pra logo depois do carnaval. Acho que março de 2017. De qualquer forma, já lancei dois singles que estão disponíveis no Youtube: Unlocked Scream e Dancing Heart. Quanto às inspirações, são das mais variadas. Gosto de muita coisa diferente, mas o mais importante para mim neste CD, é que as músicas contem uma história. Eu adoro musica instrumental, e tem alguns guitarristas que conseguem compor músicas realmente interessantes, que mesclam técnica, climas, melodia etc…. Mas hoje em dia, no mundo da guitarra, é muito aquele tipo de música calcada 100% na técnica. Como se a música em si fosse um pano de fundo pra licks e frases decoradas. Não consigo me interessar por esse tipo de som, então tenho a preocupação de não soar desta fora. É um CD para guitarristas também, mas não apenas para guitarristas e sim para qualquer pessoa que curta um som instrumental.

GNRBR: Nesse ano Ron veio ao Brasil ministrando workshops em Brasília e Florianópolis, ambos em seus respectivos GTR’s. Como foi a aceitação por parte do público e do guitarrista? Podemos esperar que esse evento se repita? E se sim, em mais estados?

MB: Na verdade o que houve é que eu fui convidado a tocar em um evento grande aqui em Brasília. O nome do evento era Na Praia e ele acontece anualmente em uma praia artificial, montada à beira do Lago Paranoá. Para cada quinta feira eles convidaram um músico de relevância em um estilo especifico para tocar e esse músico por sua vez trazia um convidado especial. Fui convidado para fazer o show do dia do rock e o meu convidado especial foi o Bumblefoot, que veio tocar comigo. Tocamos algumas músicas que estarão em meu CD solo, músicas da carreira solo dele e alguns covers. Foi um grande sucesso, record de lotação no projeto e olha que os outros dias o projeto contou com nomes como Ed Motta (na noite do Jazz) e Armandinho (na noite do Chorinho) dentre outros. Como ele já estava aqui para esse show aproveitamos para fazer os workshops. A receptividade por parte dos guitarristas e fãs de Guns foi demais. O Ron se tornou ao longo dos anos um grande amigo e é muito provável que esse tipo de oportunidade se repita sim.

GNRBR: Como surgiu a aproximação com a banda e com o Ron?

MB: Eu já o havia encontrado algumas vezes na NAMM, feira de musica que acontece anualmente em Los Angeles, mas isso foi entes dele entrar no Guns. Quando o Guns veio tocar pela primeira vez em Brasília, em 2010, os produtores locais convidaram a banda que eu tinha na época, o Khallice, para abrir o show. Enviei um email para o Ron dizendo que eu abriria o show e que gostaria de encontra-lo. Ele combinou de me encontrar na passagem de som. A partir daí a nossa aproximação aconteceu naturalmente. Ele é um grande cara.

GNRBR: Quanto tempo de negociações? Por que não deu certo? Você chegou a ter algum contato direto, audições?

MB: Você deve estar falando da questão com o Guns, né? Na verdade, na segunda vez que o Guns veio a Brasília, alguns dias depois houve um show em Floripa. Como tenho uma escola lá também organizamos um workshop com o Ron e acabei ficando em Floripa a convite dele para o show no dia seguinte. Após esse show, o Ron estava chateado com algumas coisas e me disse no camarim que sairia da banda. Na hora não acreditei muito, achei que era uma chateação momentânea e que passaria com o tempo. Mudamos de assunto. Algumas semanas depois ele me mandou um email dizendo que estava saindo e perguntando se eu gostaria que ele me indicasse para a vaga. Disse que eu havia sido a primeira pessoa em quem ele pensou e só isso já me deixou suficientemente honrado. Isso ocorreu em agosto e ele me disse que havia uma temporada marcada em Vegas para novembro (se não me engano) e que caso tudo desse certo, eu já estrearia nela. Enviei todo o material que me foi pedido, fotos, gravações, videos tocando alguns solos da banda. Houve uma troca de emails a respeito disso, mas depois soube que os shows de Vegas haviam sido cancelado e que a banda não tinha nada mais marcado na agenda. Eu sabia que se a coisa fosse acontecer, certamente teria que ir aos EUA para fazer uma audição. Ao mesmo tempo, eles não anunciaram a entrada de um novo guitarrista que não fosse eu… Com o passar do tempo os rumores de uma reunion com Slash se tornaram mais fortes e tudo fez sentido. Mantive tudo em segredo até ter certeza de que não aconteceria.

GNRBR: O que mais chamou a sua atenção no backstage, no show e nos integrantes da banda?

MB: O contato que tive com o backstage e com a banda foi exclusivamente nas oportunidades em que ou abri o show da banda ou estive como convidado do Ron. Nada de muito diferente de como funciona qualquer outra banda profissional, só que tudo em maior escala.

GNRBR: Pretende trabalhar com o Ron futuramente?

MB: O Ron é acima de tudo um grande amigo, além de um músico excepcional. Acho possível e natural que nos encontremos profissionalmente em outras oportunidades sim. Aliás… Ele deve gravar um solo em meu album solo.

GNRBR: Como é o seu processo de composição? Há muita diferença neste processo de banda em banda (Angra, Almah, REC/ALL, Khalice, Solo)?

MB: Sem dúvida cada banda é um universo diferente. Pra cada uma dessas bandas há uma forma de trabalhar, um métodos. O meu processo pessoal de composição é bastante simples. Não tenho uma regra de por onde começar, pode ser por um groove, uma melodia ou uma seqüência de acordes, mas se eu puder escolher, gosto de começar por uma melodia. A partir disso vou desenvolvendo ideias de harmonia e arranjo. Tento gravar toda e qualquer ideia musical que tenho. Em meu Iphone tem mais quinhentas idéias de partes de músicas que muitas vezes servem de idéia inicial para uma música.

GNRBR: Você está acostumado ao metal melódico devido a seus outros projetos. Como é sair um pouco desse estilo ao tocar no REC/ALL, e lembrar raízes do hard rock, como o próprio Guns N’ Roses? Que tipo de influência poderemos contar neste novo trabalho? O GN’R seria uma delas?

MB: Na verdade, me acostumei com metal melódico por uma necessidade profissional. Minhas origens musicais não mais no progressivo, hard rock e classic rock. Por esse motivo, sinto-me bastante confortável tocando no REC/ALL. Sem dúvida dentre as influencias da banda o Guns fica evidente como uma delas. O importante é que, apesar das influencias, o CD soa autentico, personalidade própria.

GNRBR: Seu mais recente clip, iHate, da banda REC/ALL, junto ao cantor carioca Rod Rossi, possui elementos que nos remete ao Chinese Democracy, o quanto o Guns N’ Roses influenciou nesse novo projeto?

MB: Como eu disse anteriormente, sei que o Guns é uma referencia importante para o Rod. Pra mim obviamente também é e creio que posso falar pelos outros da banda também. Por este motivo é natural que se encontre elementos de referencia.

GNRBR: Ainda sobre o REC/ALL, o que podemos esperar deste novo trabalho? Já temos datas de lançamento, turnês pelo Brasil?

MB: Estamos agendando as datas para 2017. Pretendemos fazer o máximo de shows possível divulgando o CD e quem sabe já começar a reunir idéias para um segundo lançamento.

GNRBR: Atualmente você divide os palcos com os guitarristas Rafael Bittencourt (Angra), Diogo Mafra (Almah), e Davis Ramay (REC/ALL), quais são as maiores diferenças que você nota entre os três e suas respectivas bandas?

MB: São músicos completamente diferentes, apesar de todos eles serem extremamente competentes. O Rafa é uma mente criativa como poucas. Apesar do domínio técnico do instrumento que ele tem, chama a atenção a sua facilidade para criar, arranjar… O Diogo foi meu aluo no GTR por muitos anos e é um profissional incrível além de ter uma técnica apuradíssima. O Davis eu conheço a menos tempo mas aprendi a admirar o seu estilo. É um prazer tocar com cada um deles.

GNRBR: Você já viajou o mundo em turnês e eventos, assim conhecendo diversos guitarristas. Na sua visão, haveria uma espécie de diferencial entre um guitarrista brasileiro, um americano, um alemão por exemplo, em seu jeito de compor, tocar, etc. ?

MB: Sem dúvida. Os músicos de maneira geral tocam o que são, o que vivenciam. Impossível as origens não afetarem o playing, O brasileiro é exposto desde muito cedo à uma variedade ritmica e harmonica muito grande. Mesmo tocando exatamente as mesmas notas que um alemão, vai soar diferente. Se você pegar o metal alemão como referencia vai ver que soa reto, straight e ao mesmo tempo forte e sem muita firula. Tem tudo a ver com as características básicas que esperamos de uma alemão, não acha. O metal brasileiro normalmente é rico em síncopes e acentuações rítmicas diferentes. Isso é natural para nós brasileiros.

GNRBR: O Edu Falaschi (Almah) é muito conhecido por sua participação no anime Cavaleiros do Zodíaco, cantando a música de abertura Pegasus Fantasy, a ponto de fãs clamarem pela canção em eventos de grande porte, como o Rock in Rio. Você já teve contato com esse tipo de música? Se sim, elas possuem alguma particularidade ao tocar? Devido ao Rod Rossi também ter participado de canções da série, poderemos esperar algo relacionado ao mundo dos animes e jogos junto ao REC/ALL?

MB: Sim, conheço um pouco deste repertório basicamente por causa dos amigos que são envolvidos e também por causa do meu filho, que hoje tem doze anos. De maneira geral são músicas simples, mais focadas na melodia vocal e letra. Acho super legar que o metal seja o estilo escolhido para representar essas histórias em tanto casos.

GNRBR: Qual seria a sua banda dos sonhos?

MB: Não costumo pensar nisso, pra ser sincero. Tenho o prazer de tocar com muitos dos músicos que mais admiro. Mas se eu tiver que citar alguns dos quais não toquei ainda e que curto muito posso dizer alguns: Mike Portnoy (bateria), Victor Wooten (baixo), Myles Kennedy (Vocal).

GNRBR: Marcelo, muito obrigado por dedicar seu tempo a nós, fãs, respondendo a cada pergunta. Sinta se livre para fazer suas considerações finais, assim como deixar seu contato em redes sociais e afins! Estamos na sua torcida sempre!

MB: Eu que agradeço o espaço e a atenção. Muito legal a oportunidade de falar um pouco com os fãs do Guns, que é uma banda que sempre curti muito, dividindo um pouco da minha história e experiência. Nos vemos na estrada.

Facebook: Marcelo Barbosa Official
Instagram: marcelobarbosagtr
Youtube: Marcelo Barbosa
www.marcelobarbosa.com.br

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Entrevista: Luis Afonso para o GunsNRosesBrasil.com
Fotos: Marcos Hermes e internet

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