São Paulo: Confira fotos, vídeos e detalhes do show do Guns no Anhembi

Guns N’ Roses South American Tour 2014
Local: Anhembi, São Paulo, SP
Data: 28/03/2014
Abertura: Doctor Pheabes, Plebe Rude

Setlist:

Intro: Far From Any Road (The Handsome Family song)
1. Chinese Democracy
2. Welcome to the Jungle
3. It’s So Easy
4. Mr. Brownstone
5. Estranged
6. Better
7. Rocket Queen
8. Live and Let Die
9. This I Love
10. Holidays in the Sun (Sex Pistols)
11. Catcher in the Rye
12. You Could Be Mine
13. Sweet Child O’ Mine
14. November Rain
15. Abnormal (cantada pelo Bumblefoot)
16. Don’t Cry
17. Knockin’ on Heaven’s Door
18. Civil War
19. Nightrain

Enconre:

26. Patience
27. The Seeker
28. Paradise City

Resenha:

Axl Rose mantém vivo o espírito rebelde do rock and roll

Por Felipe Machado, do R7.com

Poucas coisas no mundo da música são mais chatas do que gente que discute se o Axl Rose tem ou não o direito de chamar sua banda atual de Guns ‘N’ Roses. Sim, ele tem o direito. A razão é muito simples: o Guns ‘N’ Roses sempre foi a banda do Axl. E ponto final. “Ah, mas o Slash é que era legal”, dizem alguns fãs. Arrã. Talvez tenha sido por isso que o último show do Slash em São Paulo tinha cinco mil pessoas e o do Guns, ontem no Anhembi, tinha 22 mil.

É comum ouvir uma parcela da população que ‘entende’ de música criticar Axl Rose por uma série de razões. Ele vive recluso. Ele demorou anos para lançar um disco. Ele chega atrasado aos shows (o atraso foi de uma hora e meia ontem – só por curiosidade, Axl tem na parede de casa um quadro com a expressão ‘A pontualidade é o ladrão do tempo’, frase de Oscar Wilde).

Alguém poderia falar da música? Alguém poderia falar da importância do Guns para o rock nos anos 80/90? Ficamos acostumados ao bom mocismo corporativo de um Dave Grohl, do Foo Fighters, ou à rebeldia milimetricamente planejada de um Jack White, do White Stripes. Com tantos coxinhas por aí, a grande verdade é que Axl mantém vivo o espírito rebelde do rock and roll. Ele é o último roqueiro perigoso entre nós, o único que nunca fez concessões de nenhuma natureza. Axl é a personalização do espírito incontrolável que idolatrávamos em gente como Mick Jagger ou Ozzy Osbourne – antes de o politicamente correto se tornar a moeda corrente do mundo do entretenimento. Axl é imprevisível, invocado, casca grossa.

Apesar dessa fama de mau, o que vimos no show de ontem em São Paulo foi um Axl Rose mais calmo, focado, até mesmo em melhor forma física do que no último show por aqui, em março de 2010. Posso pagar a língua, mas a verdade é que ele parece um pouco mais… saudável. Deve estar cansado, sim, principalmente em razão da maratona de shows previstos nessa turnê brasileira, sete ao todo. Já foram Rio, BH, Brasília e São Paulo, e ainda faltam Curitiba (30 de março), Florianópolis (1 de abril) e Porto Alegre (3 de abril).

Outro comentário vazio que as pessoas costumam fazer diz respeito a sua aparência física: “o Axl Rose não é mais o mesmo”. Não, ele não é. Dã. Quando o primeiro disco da banda, ‘Appetite for Destruction’, explodiu em todo o mundo, o cara tinha vinte e poucos anos. Hoje tem 52. Quem o critica por essa bobagem esquece o efeito que trinta anos impõem a qualquer ser humano – até mesmo ao Axl, vejam só que coisa incrível.

Há, porém, uma crítica legítima à sua capacidade vocal. Realmente, quanto a isso não há dúvida: Axl não tem mais o alcance que tinha no início da carreira. Mas qualquer pessoa com a mínima noção sobre o que é cantar sabe que o jeito que o Axl cantava não era sustentável (para usar uma palavra da moda) a longo prazo. Não tem como alguém manter aquela voz rasgada e esganiçada durante muito tempo. Mas confesso que até isso me deixou positivamente impactado no show de ontem, já que Axl apresentou uma performance vocal bastante razoável. Os tons das músicas do Guns são tão altos que só chegar ao final do show com voz já seria algo impressionante.

Voltando à polêmica sobre a banda de Axl, é óbvio que seria muito legal ver Slash ao seu lado. Tive a oportunidade de ver o Guns com sua formação original na turnê ‘Use Your Illusion’, quando eram a maior banda do planeta. No estádio lotado em Budapeste, na Hungria, Axl e Slash eram tão perfeitos juntos que remetiam imediatamente às grandes ‘duplas’ do rock, como Jagger & Richards, Daltrey & Townshend, Plant & Page… As lendas do rock costumam ter em comum esse tipo de formação, dois frontmen de personalidades complementares duelando pelos holofotes enquanto são endeusados e venerados (com toda a razão) pelo público.

Essa relação entre Axl e seus músicos – na verdade, a falta dela – foi o que me incomodou no show de ontem. Os três guitarristas do Guns são sensacionais, tocam muito (inclusive no sentido literal, já que há longos solos individuais de todos eles) e até tentam agitar a plateia com corridinhas e gracinhas (não sei se foi a cerveja, mas tive a impressão de ter ouvido o ‘tema da vitória’ do Ayrton Senna, entre as várias citações). Além disso, são tatuados, tem penteados esquisitos e tocam guitarras de design exótico, como exige o imaginário ‘Manual do Rockstar do Século 21’. Mas a verdade é que falta carisma, falta personalidade, falta interação – e integração – com Axl.

Ou seja: os guitarristas DJ Ashba, Bumblefoot e Richard Fortus são excelentes músicos – mas péssimos artistas. Nos teclados, Axl manteve o veterano Dizzy Reed, o único remanescente, digamos, ‘das antigas’. No baixo, dá para ver que Axl gosta mesmo de baixistas com ‘atitude punk’, como era o velho Duff McKagan da formação original. Para ‘provar’ que é punk mesmo, o baixista atual Tommy Stinson cantou ‘Holidays in the Sun’, do Sex Pistols. A banda tem ainda Chris Pitman nos teclados e Frank Ferrer, músico de estúdio e membro do Psychedelic Furs, na bateria – todos excelentes e igualmente inexpressivos.

Apesar das críticas que Axl recebe, é impossível falar mal do show de ontem do ponto de vista do repertório. Tocaram canções de todas as fases da banda, de maneira bastante equilibrada. Depois da introdução ‘Far From Any Road’, que também é tema do seriado ‘True Detective’, o show começou com ‘Chinese Democracy’, canção que batiza o disco que ficou mais famoso pelo tempo que demorou para sair do que por suas músicas. O que é uma pena e uma injustiça: se as pessoas passassem o tempo que ficam fazendo fofocas sobre o peso do Axl Rose ouvindo o disco, saberiam que ‘Chinese Democracy’ é excelente, moderno, uma combinação perfeita de guitarras incendiárias e rock com pegada mais eletrônica. Os solos de Robin Finck (hoje de volta ao Nine Inch Nails) em ‘Better’ e ‘This I Love’ estão entre os melhores solos de todos os tempos em qualquer estilo.

Quanto ao tempo de gestação do álbum, concordo que doze anos é muito para qualquer artista (Axl começou a gravar em 1996 e o disco só saiu em 2008). Mas vamos lembrar que durante esse período todos os integrantes do Guns ‘N’ Roses deixaram a banda, e Axl teve que formar uma banda nova praticamente do zero. Se a gente imaginar que o Metallica não lança disco novo há seis anos e não enfrentou nenhuma mudança na formação nesse período, os doze anos de ‘Chinese Democracy’ nem parecem tão longos assim.

Na sequência do show vieram clássicos do primeiro disco da banda, sem dúvida uma das estreias mais sensacionais da história do rock. ‘Welcome to the Jungle’, ‘It’s so Easy’, ‘Mr. Brownstone’ foram cantadas animadamente pelo público. Apesar de serem grandes músicas, já as ‘novas’ ‘Better’ e ‘Catcher in the Rye’ não empolgaram muito. ‘Live and Let Die’, cover do Wings e trilha sonora de filme do James Bond, volta a acender a galera, apesar dos efeitos pirotécnicos meio fraquinhos. Um foguinho aqui, uma explosãozinha meia boca ali… – ai, que meeedo #sqn– , e a música chega ao fim.

A sequência é matadora: ‘You Could be Mine’, trilha sonora do filme ‘Exterminador do Futuro 2’, foi cantada por quase todo mundo – fato que só aconteceu mesmo na música seguinte, ‘Sweet Child O’mine’. Às vezes eu esqueço como esse riff é bom, afinal ele tocou muito e saturou a nossa paciência. Mas basta ouvi-lo ao vivo que a certeza volta: se não for um dos melhores riffs da história do rock and roll, então eu não entendo nada de guitarra.

Em ‘November Rain’, a gente redescobre que o Axl é uma espécie de Elton John pós-moderno. Em ‘Don’t Cry’, a gente comprova que o Slash era um grande compositor de solos, já que DJ Ashba repetiu sua melodia nota por nota. Em ‘Knockin on Heaven’s Door’, cover do Bob Dylan, a gente lembra que hit que se preza é hit com refrão forte e fácil de cantar.

O show está chegando ao fim. Depois de ‘Civil War’, épica como uma guerra civil, Axl diz adeus com ‘Nightrain’. Claro que tem ‘mais um, mais um, mais um’… Depois de um trechinho de ‘You Can’t Always Get What You Want’, dos Rolling Stones, o Guns toca a enjoadinha ‘Patience’ e emenda em ‘The Seeker’, cover do The Who. A plateia, com muitos adolescentes, parece perguntar ‘quem?’, com o perdão do trocadilho. E daí o Guns termina mesmo com ‘Paradise City’, where the grass is green and the girls are pretty.

A dificuldade em achar um táxi na saída do Anhembi nos lembra que São Paulo está longe de ser uma ‘Paradise City’. Mas durante duas horas e pouco, o Anhembi foi, sim, um paraíso para os fãs de rock and roll. Não aquele rock and roll bonitinho, certinho, de barbinha milimetricamente por fazer, o rock and roll coxinha que a gente infelizmente acostumou a ver nos últimos tempos. O que vimos foi um paraíso recheado do mais puro e perigoso rock and roll. Em duas palavras, sem concessões. Para o bem ou para o mal, Axl Rose não fez ontem nenhuma loucura. Mas só de saber que ele pode explodir a qualquer momento… ah, isso nos traz de volta, ainda que por pouco tempo, o espírito imprevisível só vistos nos roqueiros de verdade. Se ele tem ou não uma causa, não importa: Axl Rose é um dos últimos rebeldes do rock and roll.

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